Endereço

Rua Pernambuco, 1002 - Sala 601
Savassi | CEP 30130-151
Belo Horizonte, MG
Tel.: 3261 8282 - 3262-4130/0876
sdamg@sdamg.com.br


Clique aqui para acessar a Intranet

Notícias

voltar        

Intensidade tecnológica nas exportações primárias



A cada notícia de que as exportações de produtos primários crescem de forma mais acentuada do que as exportações de produtos manufaturados, muitos economistas parecem considerar que se trata de um mal estar econômico. Na verdade, a parcela mais expressiva dos superávits da balança comercial, que vêm se acumulando desde 2002, está vinculando ãs exportações de produtos direta ou indiretamente intensivos de recursos naturais. Estaria o Brasil, então, entrando num processo de especialização retroativa?


Essa questão não pode ser respondida, como se faz usualmente, como se faz usualmente, se a classificação dos produtos exportados estiver fortemente agregada em poucos setores com um mínimo de diferenciação interna quanto às características estruturais desses produtos (tipos de organização empresarial, transportabilidade, mfluxos de destino, etc.). Neste caso, a tendência é classificar quase todos os produtos intensivos de recursos naturais nos setores de baixa tecnologia. O que é uma generalização equivocada do ponto de vista conceitual e operacional, por causa de pelo menos três grandes linhas de argumentação.


Em primeiro lugar, conforme as áreas geogr;aficas a que se destinam as exportações, a complexidade da demanda por certas especificidades po qualidade dos produtos de origem primária (zoossanidade, fitossanidade, manejo sustentável, padronização, certificação, etc.) leva a que esses produtos tenham que dispor de maior intensidade de capitais intagíveis (informação e conhecimento, capital humano, capital institucional, etc.) do que um grande número de produtos manufaturados tradicionais. Ou seja, uma estrutura de demanda global, que impõe certas características aos produtos exportados, torna-se um fator indutor de intensificãção tecnológica desses produtos. Um exemplo disso é o do SISTEMA REACH (Registration, Evaluiation, Authorization and Restriction of Chemicals).


Trara-se de um sistema integrado único de registro, avaliação e autorização de substâncias químicas da União Européia (UE), que entrou em vigor no dia 1 de junho de 2007. Espera-se qie aproximadamente 1.500 substâncias químicas estarão submetidas a processsos de autorização. Não só as exportações diretas, mas também aquelas que fornecem insumos e matérias-primas que serão incorporadas a produtos exportados para a UE, compõem o universo das empresas a serem afetadas, sob controle da Agência Européia de Subatâncias Químicas (ECHA).


Em segundo lugar, a entrada da China e da Índia, assim como de outros player no comércio global, modificou profundamente a estrutura da oferta e da procura de bens e serviços em um número imenso de mercados mundiais. É notória a mudança do patamar de demanda para produtos intensivos, direta e indiretamente, de recursos naturais. Estima-se que a taxa de motorização da China foi equivalente à de Portugal (uma das menores da UE) isto implicaria um consumo de petróleo igual a toda produção anual da Arábia Saudita, o maior produtor mundial. Da mesma forma, a China e a Índia ampliaram suas vantagens competitivas em produtos de alta tecnologia através de investimentos no chamado capital intelectual, as quais dificilmente poderão ser alcançadas por empresas brasileiras, que padecem de um contexto de baixo nível de poupança doméstica, de precariedade nos sistemas educacionais, de fragilidade da infraestrutura econômica, etc. Um contexto que xomente tende a se transformar através de reformas institucionais e microeconômicas num prazo ultralongo. Assim, muitos exportadores de produtos manufaturados menos competitivos ficam na dependência de grandes desvalorizações cambiais, com os seus efeitos perversos sobre o processo inflacionário.


Finalmente, Michael Porter tem destacado, em seus estudos, que a vantagem competitiva que os países e regiões que estruturam as suas economias na produção de bens e serviços intensivos em fatores básicos, ou não especializados (recursos naturais renováveis ou não, posisão geográfica, mão-de-obra não qualificada ou semiqualificada, clima, etc.), são incapazes de gerar os fundamentos de uma competitividade sustentável, assim como prover de melhores condições de vida os seus habitantes. Neste caso, o grau de replicabilidade desses bens e serviços parra a ser muito elevado e as condições mais fáceis de entrada de concorrentes deprimem as margens de lucro dos exportadores. Esses, ao adotarem uma estratégia de diferenciação de seus produtos (café orgânico ou gourmet, aços especiais, madeira certificada, etc) para recompor essa margem, terão que aprofundar o processo tecnológico de seus processos produtivos.


PAULO R. HADDAD


 



Fonte: Fato Relevante Fevereiro 2011
Animatto Webcom