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Risco nas exportações



A pauta de exportações do Brasil torna-se motivo de preocupação. Cresceu em volume e preços a venda de commodities – agrícolas e minerais – enquanto diminuiu o peso dos industrializados. Em 2000, a balança era meio a meio. Em 2010, a fatia dos manufaturados caiu para 40% e em 2011 a participação está em 37% do total exportado. Os itens que realmente encorpam a pauta de exportação brasileira são minério de ferro, soja, açúcar, celulose, café, carnes, petróleo e alguns tipos de aço, ou seja, produtos básicos e semimanufaturados, que já respondem por mais de 70% do valor de nossas vendas externas. A participação dos produtos industrializados, de mais tecnologia e maior valor, está caindo desde 2006, não apenas pelo boom de commodities, mas pelo seu próprio desempenho. Em 2009, comparado a 2008, as exportações brasileiras de produtos manufaturados diminuíram 14,2%, caindo de US$ 92,7 bilhões para US$ 79,6 bilhões.

Temos vocação para ofertar de maneira competitiva minerais e alimentos. Devemos aproveitar as oportunidades. Nos últimos três anos, os preços dispararam e contribuíram para alavancar nossa balança comercial. Mas o desempenho dos manufaturados traz sinais de perigo. As indústrias de média e alta tecnologia tiveram o pior desempenho dos últimos 22 anos no primeiro trimestre de 2011 na comparação exportações versus importações. Aí se incluem, por exemplo, máquinas e equipamentos, veículos, químicos, material de escritório, de informática, rádio, televisão e comunicações. No período, as exportações de máquinas e equipamentos caíram 40% em relação ao mesmo período de 2010 e os bens de consumo duráveis diminuíram 77%. Os industrializados de alta e média tecnologia são hoje metade dos fluxos de comércio no mundo e estamos ficando mais longe deles e mais próximos de uma primarização da pauta. Diversos dados indicam que perdemos espaço no comércio mundial de produtos industriais de maior valor agregado.

Essa perda tem explicações claras. Em algumas empresas os fatores são internos, mas na grande maioria os problemas estão da porta para fora. A carga tributária elevada – passando de 35% do PIB e em cascata, fazendo com que o país exporte impostos –, os altos custos financeiros, a burocracia estatal, as dezenas de obrigações tributárias, aduaneiras, trabalhistas, previdenciárias e de meio ambiente, a insegurança jurídica, a dificuldade de investimentos em pesquisa e inovação, além das deficiências de infraestrutura, que encarecem a produção e o escoamento. A apreciação do real, com o dólar se desvalorizando em níveis acentuados, e a prática por muitos países das desvalorizações competitivas, afetam nossa capacidade de exportação industrial, enquanto facilitam a entrada de importados, dificultando, também, a competição interna. O resultado é uma séria ameaça às indústrias brasileiras de setores relevantes.

A verdade é que o país ainda precisa avançar muito na construção de políticas efetivas para estimular as exportações diante da capacidade concorrencial da indústria, cada vez mais fragilizada, principalmente, em relação aos países asiáticos. Alguns deles, como a China, produzindo em condições assimétricas, graças à mão de obra farta e barata, ausência de previdência social, juros subsidiados, taxa de câmbio desvalorizada artificialmente, práticas de dumping e forte intervenção estatal para proteger o mercado local e incentivar o comércio no exterior.

Onde está o perigo? Primeiro: é pela da indústria, na maior parte, que o país obtém resultados em inovação e desenvolvimento, fabricando produtos de maior valor agregado, ofertando empregos de melhor remuneração e geração de renda. Segundo, um país industrialmente frágil não é compatível com o papel reservado ao Brasil no mundo, por seu tamanho, população, localização, vocação, recursos naturais e condições geopolíticas. Terceiro: as atuais relações de troca com o exterior entre produtos primários e industrializados não são sustentáveis para uma economia do tamanho da nossa. E, por último, quando perdemos mercados lá fora com os industrializados, a reconquista é difícil. Já as cotações de commodities oscilam muito. E quando caírem para valer? Se o país confirmar a perda de espaço nas exportações industriais, teremos dificuldades com nossas contas externas a médio prazo. E elas, em várias ocasiões, foram barreira para o crescimento sustentado do país.


Deusdedith Aquino - Jornalista



Fonte: Estado de Minas 18/05/2011
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